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27/02/2007

Falta um Ministério

Apesar do governo Lula já contar com trinta e tantos Ministérios e assemelhados (nunca se sabe o número ao certo), sugiro que se crie um novo, inspirado no célebre Ministério das Perguntas Cretinas de Millor Fernandes na coluna Pif Paf do sempre lembrado semanrário O Cruzeiro. Trata-se do MEC - Ministério das Explicações Cretinas, cuja denominação alternativa seria MEQEG , o Ministério do Me Engana que Eu Gosto, pois está faltando um orgão para sistematizar , organizar, articular e disciplinar o processo de criação de explicações nas repartições públicas e entidades estatais.

O funcionário dos Correios é filmado recebendo um maço de dinheiro que coloca sem maiores cerimônias no bolso e explica que se trata de um adiantamento para um serviço de consultoria que iria prestar. Para quem? Não se lembra. Para fazer o que? Também não se lembra. Como explicar? Foi vítima de uma armação e pretende doar o dinheiro para as crianças com câncer. Comovente, não é mesmo? O Deputado Roberto Jefferson é citado como chefe do esquema de corrupção e fala grosso: exige uma CPI para esclarecer os fatos e comunica que o PTB entregará os cargos que detém no governo federal. Dois dias depois desiste. Explicação: uma vez que o funcionário dos Correios voltou atrás na acusação, considera o fato encerrado, julga-se inocentado de qualquer suspeita e, portanto, não vê mais razão nem para CPI nem para entregar cargos. Waldomiro Diniz é filmado pedindo uma modesta comissão de 1% a um bicheiro e não hesita: foi tudo armação, o dinheiro não era para ele, era para atender a um companheiro (incógnito) que enfrenta problemas pessoais e de saúde. O ex-governador Jayme Canet Junior costuma dizer que aceita qualquer coisa , menos que queiram passar-lhe atestado público de estupidez. Sigo a mesma linha embora com menos elegância: costumo dizer que meu ouvido não é lata de lixo.

Agora, vem a teoria conspiratória. Vozes autorizadas falam em conspiração. O Ministro José Dirceu , que aliás era o chefe imediato de Waldomiro Diniz que está completando quinze meses de absoluta impunidade por suas travessuras financeiras em Brasilia, fala em conspiração. O Ministro Waldir Pires, aliás encarregado da corregedoria do governo , em vez de demonstrar concretamente o que foi feito de objetivo nos casos anteriores de corrupção, fala em conspiração. José Genoíno , antes tão preocupado com a ética dos governantes , fala em conspiração. Haveria uma conspiração em marcha para “desestabilizar” o governo. Mas que é que desestabiliza um governo? É o fato da oposição atual repetir o que o PT fez várias vezes com sucesso no passado conseguindo instalar uma CPI? A oposição nada mais faz do que cumprir o seu papel pois , como ensinaria o imortal Conselheiro Acácio, oposições servem para opor-se aos que estão no poder .

Conspirações são armas antigas e perigosas na política brasileira, de um lado e de outro. Carlos Lacerda , quando tentou desestabilizar o governo de Jango Goulart , apareceu com uma suposta carta de um deputado argentino, chamado Brandi, propondo a Jango criar uma república sindicalista na America do Sul. A falsidade da Carta Brandi foi rapidamente desmascarada e não chegou a contribuir para a queda de Jango ,que teve causas muito mais concretas. Mas Getulio Vargas, em 1937, utilizou uma outra falsificação, o chamado Plano Cohen, para se declarar ameaçado por extremistas que conspiravam contra ele e decretar o Estado Novo mergulhando o país em oito anos de ditadura. Em vez de alegar uma conspiração em marcha e se envolver até a medula em manobras regimentais , pressões e ameaças para que parlamentares retirem assinaturas na CPI, e liberação de verbas às pressas para contentar “os companheiros”, o que o governo poderia fazer é demonstrar cabalmente que quem não deve não teme. Nenhum governo está livre de abrigar corruptos em suas hostes, mas nenhum governo pode, em nome da lealdade dos companheiros ou de sua tranqüilidade parlamentar, empurrar as suspeitas para baixo do tapete, declarar o assunto encerrado unilateralmente e tocar a vida para a frente como se nada houvesse acontecido.

Nesses episódios deprimentes que estamos vivendo, todos estão perdendo. Mas quem, certamente, perde mais são alguns políticos que acreditavam estar construindo suas biografias e que agora se veem rapidamente sendo encaminhados para o departamento de prontuários.

PS: Fabiano Braga Cortes me alertava outro dia para o absurdo que é a complacência com o massacre publicitário dos bancos sobre os aposentados , o grande filão de lucros do mercado financeiro atualmente. Ele tem absoluta razão: enquanto as celebridades globais ganham milhões para estimular os aposentados a comprometer sua minguada renda futura em empréstimos imprudentes, o governo assiste impassível à formação de uma bolha de endividamento que rapidamente se transformará em problema social.

BELMIRO VALVERDE JOBIM CASTOR é Professor do Mestrado em Organizações e Desenvolvimento da FAE Business School

Dados da publicação: BELMIRO VALVERDE JOBIM CASTOR


 
 
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