O
BRASIL NÃO É PARA AMADORES
Estado, governo e burocracia na terra do “jeitinho”
2ª edição revista e atualizada
Para
Elizabeth, amor da minha vida.
Para Belmiro Valverde, meu avô.
Meus eternos e incorrigíveis torcedores.
A
justiça é a primeira virtude das instituições
sociais, da mesma forma
como a verdade o é dos sistemas de pensamento.Por
mais elegante ou
econômica que seja, uma teoria deve ser rejeitada
ou revista se não for verdadeira; da mesma maneira
por mais eficientes e bem organizadas que sejam, leis e
instituições devem ser reformadas ou abolidas
se forem injustas .
John Rawls
Menos
desejo que se tenha por presunção o fato de
um homem de baixa e ínfima condição
discorrer e regular a respeito do governo dos príncipes
. Da mesma maneira que aqueles que desenham os contornos
dos países postam-se na planície para apreender
a natureza dos montes, e sobem aos montes para apreender
a das planícies, para bem aquilatar a natureza dos
povos é preciso ser príncipe e para aquilatar
a dos príncipes, é preciso ser povo
Niccoló
Machiavelli
SUMÁRIO
APRESENTAÇÃO
DA SEGUNDA EDIÇÃO
PREFÁCIO:
CINCO SÉCULOS EM BUSCA DE EXPLICAÇÃO
I
- COMO MENTIR COM ESTATÍSTICAS
II
- QUEM HERDA NÃO FURTA
III
- POR QUE HÁ LEIS "QUE PEGAM" E QUE "NÃO
PEGAM"
IV
- CAPITALISMO À BRASILEIRA
V
- O ICEBERG DA ECONOMIA INFORMAL
VI-
EMPRESAS MODERNAS , EMPRESÁRIOS NEM TANTO
VII - O PAÍS DOS FALSOS PREGUIÇOSOS
VIII - MARIAS CANDELÁRIAS , BARNABÉS E MARAJÁS:
NOMENKLATURA TROPICAL
IX - EM BUSCA DO SANTO GRAAL: POR QUE AS REFORMAS ADMINISTRATIVAS
NÃO DÃO CERTO
X - NESSA DEMOCRACIA MANDA A BUROCRACIA
XI - QUANDO O ESTADO FICOU MAIS POBRE, O PAÍS FICOU
MAIS RICO?
XII -OS NOVOS CONTORNOS DO ESTADO NO BRASIL
CONCLUSÃO
BIBLIOGRAFIA
APRESENTAÇÃO DA SEGUNDA EDIÇÃO
DE O BRASIL NÃO É PARA AMADORES
Introdução
CINCO
SÉCULOS EM BUSCA DE EXPLICAÇÃO
Tinha todos os climas , todos
os frutos, todos os minerais e animais úteis, as
melhores terras de cultura, a gente mais valente, mais hospitaleira
, mais doce e mais inteligente do mundo - o que precisava
mais? Tempo e um pouco de originalidade
Lima Barreto
Quase
um século depois do Major Policarpo Quaresma se entregar
a essas meditações, e passados mais de quinhentos
anos de sua descoberta, o Brasil aparentemente ainda precisa
de tempo e de originalidade para eliminar duas verdades
deprimentes : milhões de pessoas vivem na miséria
, em um país que a natureza premiou com recursos
naturais abundantes e poupou de furacões, vulcões,
terremotos e outros desastres ; e chegamos ao terceiro milênio
, às voltas com níveis vergonhosos de concentração
de renda e de desigualdade social , enquanto o mundo desenvolvido
ingressa na
Terceira Revolução Industrial, na Era do Conhecimento
, em que a satisfação universal das necessidades
humanas básicas será coisa do passado dentro
de poucas décadas . É evidente que para cada
uma dessas questões não existem respostas
fáceis nem culpados únicos.
Em todos os países que superaram esses desafios ,
a vitória não pode ser atribuida a qualquer
grupo social isoladamente: não foram o Estado e a
burocracia estatal sozinhos, nem as elites, nem a população
que o fizeram. Foram todos eles, em conjunto, que se mobilizaram
para produzir tais avanços. Mas é fora de
dúvida , em todos os casos , que o Estado foi o grande
articulador das diferentes forças sociais , arbitrando
os conflitos entre seus interesses próprios e garantindo
condições para que alguns objetivos civilizatórios
mínimos fossem cumpridos: a universalização
dos bens e serviços necessários à vida
digna dos cidadãos, a proteção desses
contra o esbulho, a violência e o arbítrio
dos mais poderosos , o acesso às oportunidades e
a participação na vida política do
país.
No Brasil , o Estado gozou , por séculos , de poderes
extraordinários que lhe permitiram cumprir um papel
central no processo de formação nacional .
A rigor, pode-se, mesmo dizer , como Guerreiro Ramos , que
o Estado chegou antes da nação, precedeu a
sociedade (1966: 399), o que impregnou de maneira definitiva
os contornos econômicos, sociais, políticos
e culturais de nosso país. Talvez como fruto indesejado
dessa precedência , os governantes e a burocracia
do Estado brasileiro nunca se consideraram como membros
de uma instituição subordinada à nação
e sim como seus mentores, tutores ou preceptores. A população,
em contrapartida, sempre agiu em relação ao
Estado de maneira reverente e submissa, aceitando como natural
o fato de ter de recorrer a ele para tudo , e vencer barreiras
enormes de indiferença , descaso e intolerância
para fazer valer seus direitos mais elementares ou conseguir
as coisas mais comezinhas.
Nunca se saberá ao certo o que teria ocorrido com
a economia e a sociedade brasileiras se o Estado não
tivesse assumido um papel tão preponderante como
efetivamente assumiu , mas é razoável admitir
que a expansão econômica promovida ou estimulada
em grande parte por políticas públicas deliberadas,
gerou impactos materiais significativos e positivos na vida
do país. Da sociedade rural que éramos no
início do século, chegamos a ser a oitava
economia do mundo nos anos oitenta e mesmo depois dos percalços
das duas últimas décadas , ocupamos ainda
a décima primeira posição no ranking
das economias mundiais se for considerado o tamanho do PIB
– Produto Interno Bruto. As estatísticas mostram
também que a expectativa média de vida da
população e os indicadores sociais de educação,
saúde e nutrição acusaram avanços
consideráveis enquanto que se registrou um acesso
crescente aos confortos da vida moderna em nosso país.:
89% das casas têm televisores, 96% dispõem
de eletricidade , 85,1% de geladeiras e 58,9 % de telefone?
(IBGE/PNAD, 2001).Mas, apesar do seu indiscutível
sucesso como agente motor do processo de desenvolvimento
econômico do país, especialmente nos últimos
setenta anos, não se pode dizer que o Estado brasileiro
tenha sido bem sucedido naquilo que a população
poderia esperar dele , se levarmos em consideração
o papel que desempenhou na vida nacional durante tanto tempo
e os poderes de que sempre dispôs .
Parte substancial da população ainda está
longe de experimentar um padrão mínimo de
dignidade existencial, pois o Brasil ainda apresenta níveis
elevados de analfabetismo , baixos índices qualitativos
de educação fundamental e convive com doenças
endêmicas e problemas de saúde pública
que outras nações muito mais pobres já
venceram há bastante tempo , cujas soluções
não apresentam quaisquer desafios científicos
ou tecnológicos insuperáveis. A população
tem de aturar serviços públicos precários,
idosos têm de passar à noite em filas para
obter uma senha de consulta médica gratuita, doentes
e acidentados esperam horas (e até dias) para receber
atenção médica em hospitais públicos
e pais fazem vigília na frente de escolas públicas
durante vários dias para conseguir uma simples vaga
para seus filhos.
As oportunidades estão distribuidas de maneira injusta
e desigual: o 1% mais rico da população detem
maior porcentagem da Renda nacional (13,3%) que os cinquenta
por cento mais pobres (12,6%) ; quase metade da Renda nacional
(47,4%) está concentrada nas mãos dos 10%
mais ricos da população brasileira; a mortalidade
infantil entre negros e pardos é 67% mais alta do
que entre os brancos (IBGE,1999) ; negros e pardos também
ocupam de maneira desproporcionalmente alta os estratos
mais baixos de renda e percebem salários menores
(em média, menos da metade) que os dos brancos, mesmo
quando passaram o mesmo tempo na escola (Torres & Rossetti,
1998:3-3 ; Pastore,1999:A3) ; um habitante do nordeste brasileiro
tem uma expectativa de vida ao nascer cinco anos e três
meses menor do que um brasileiro do sul (IBGE,1999) .
Dos 3 milhões de estudantes universitários
brasileiros, apenas 930 mil freqüentam universidades
públicas , cujo ensino é gratuito na totalidade
das instituições federais e na maioria das
estaduais. A injustiça intrínseca do sistema
de ensino público gratuito, onde os alunos são
admitidos por processos classificatórios universais
fica patente quando se constata que as chances de um estudante
oriundo da escola pública obter uma vaga em uma universidade
pública e gratuita são muito menores do que
um estudante de escola particular (Martins, 1998: 3-1) ,
por força da baixa qualidade do ensino ministrado
nas escolas públicas para onde acorre a população
mais pobre e das desigualdades de renda que obrigam os estudantes
mais pobres a trabalhar desde cedo dedicando, assim, menos
tempo à formação escolar .
A proteção legal contra a violência,
o esbulho e a arbitrariedade ainda é limitada e virtualmente
inacessível a largas camadas da população,
como o avanço do crime organizado ,o colapso dos
serviços policiais e as deficiências do aparelho
judiciário investigados pelo Congresso Nacional demonstraram
sobejamente . O Brasil se coloca entre os líderes
do desonroso ranking dos países com maior incidência
de homicídios (24,9 mortes por 100 mil habitantes)
superado apenas pela África do Sul (60,8) e pela
Albânia (49,7) registrando quatro vezes mais homicídios
e roubos do que a média mundial (Godoy & Lemos,
2001). No entanto, essas altas médias não
podem ser diretamente associadas à falta de policiais,
pois o país dispõe de 284 deles por 100 mil
habitantes, número quase idêntico à
média mundial (286) devendo isto sim, ser em boa
parte, atribuídas ao enorme despreparo tecnológico
e humano das polícias brasileiras e ineficácia
do aparelho judicial repressor.
A ação (ou a inação) estatal
foram decisivas para construir a sociedade industrial de
massa que somos , mas ao mesmo tempo , influenciaram negativamente
a competitividade de nossa economia , perpetuaram a desigualdade
, criaram castas e nichos de privilégios e privilegiados
e empurraram o grosso da população para um
Brasil muito diferente daquele que existe na superfície
das aparências. Uma peculiar combinação
entre um Estado distanciado da nação , uma
burocracia transcendente , uma população tolerante
e uma elite imobilista e retrógrada resultou em uma
sociedade profundamente formalista , em que aparências
e realidades estão em profunda e permanente contradição
.Quem insistir em interpretá-lo (ou em governá-lo)
com base em aparências ostensivas e no que ocorre
em outros países , acabará por se assemelhar
a um turista que vai ao desfile das escolas de samba e sai
acreditando que o Brasil tem mesmo uma corte imperial e
que ela está dançando na pista entre arminhos,
plumas e cabeleiras postiças.
O Estado brasileiro vem experimentando , nos últimos
anos , um processo de progressivo e indisfarçável
sucateamento operacional e financeiro A arrogância,
o sibaritismo e a insensibilidade que o aparelho estatal
sempre demonstrou em relação à população
em suas décadas de prestígio e de prosperidade
, fez com que , agora , a população assista
a esse processo de desmantelamento de maneira indiferente
e , não raro , até jubilosa. No entanto, é
urgente a substituição do modelo de Estado
desenvolvimentista que dominou a política brasileira
nos últimos setenta anos e que se encontra em passo
acelerado para seu total desmantelamento por outro , mais
coerente com os novos tempos e os novos desafios impostos
pela globalização e pela limitação
de recursos , mas que , ao mesmo tempo, seja mais bem sucedido
em construir uma sociedade mais próspera , menos
desigual e mais justa para a totalidade da população
brasileira .
Este livro analisa , sob diferentes perspectivas , o papel
do Estado no Brasil moderno e as forças que , em
boa medida, moldaram o país em que vivemos neste
final de século XX . Meu ponto de partida foi a análise
da administração pública empreendida
por Guerreiro Ramos em um dos clássicos da teoria
administrativa em nosso país, Administração
e Estratégia de Desenvolvimento (1966) utilizando-se
do formalismo como categoria central . O formalismo, que
Fred Riggs definiu como a discrepância entre o prescritivo
e o descritivo, entre o poder formal e o poder efetivo,
entre a impressão que nos é dada pela constituição,
pelas leis e regulamentos , organogramas e estatísticas
, e os fatos práticos e reais do governo e da sociedade
(1964:22) é uma característica dominante em
todo o nosso processo de formação da nação
e do Estado brasileiros que marcou , de forma indelével
o nosso caráter nacional. É verdade que Guerreiro
encarava o formalismo como uma estratégia de modernização
institucional e de construção nacional e não
como uma patologia social (1966:360-380). Dessa forma, atenuava
o antagonismo de Oliveira Viana, Alberto Torres , Silvio
Romero e de outros estudiosos à transplantação
incrítica de modelos e de idéias estrangeiras
para os problemas brasileiros (Ramos,1966: 360-90) e até
atribuia ao formalismo alguns méritos importantes
, como o de facilitar a inserção do Brasil
recém-nascido na comunidade internacional, diminuir
a rigidez das estruturas sociais e facilitar a mobilidade
vertical dos estratos mais desfavorecidos da população.
Mas a sua visão crítica do caráter
formalista de nossa sociedade é visível na
sua análise das elites (às quais atribuía
um formalismo crônico) e das desigualdades sociais
, que eram e são legitimadas pelas práticas
formalistas. Além disso, Guerreiro Ramos , ao se
referir ao papel estratégico do formalismo, referia-se
ao período em que inexistiam , em nosso país,
condições concretas de auto-articulação
(1966:360), que ele situou no período colonial e
nos primórdios de nossa vida nacional independente
, sem atribuir ao formalismo méritos intrínsecos,
atemporais.
Procurei escapar à armadilha do formalismo brasileiro,
que oculta a verdadeira substância dos fenômenos
econômicos, sociopolíticos e burocráticos
sob uma capa de aparências enganosas , interpretando
a realidade das instituições e da máquina
estatal brasileira com base numa análise abrangente
das organizações e dos processo econômico
do país, de modo a capturar algumas realidades que
não estão ostensivamente retratadas nas estatísticas
nem reconhecida na maioria dos estudos sobre a nossa administração
pública . Essa abordagem não-formalista exigiu,
também, que abordasse o aparato estatal brasileiro
de maneira a explicitar o relacionamento entre a burocracia
e o que Maritain (1998:9) chamou de corpo político
da nação ,e demonstrar a grande fragilidade
do processo democrático, quando confrontado com o
poder das elites burocráticas . E procurei , também,
explorar o componente de improvisação, de
expediência, de imediatismo para entender aspectos
importantes da dinâmica do Estado e da sociedade brasileira.
As idéias centrais deste livro em relação
aos papéis , poderes , limites e modus operandi do
Estado e dos governantes tiveram diversas inspirações
: tendo em vista que parti do pressuposto de que o objetivo
final de uma sociedade humana é ser justa , e de
que todos os valores sociais - a liberdade e a oportunidade,
a renda e a riqueza , e as bases do respeito próprio
- devem ser distribuidos igualmente, a não ser que
a distribuição desigual de algum ou todos
esses valores resulte em vantagem para todos , a Teoria
de Justiça de John Rawls (de onde a citação
é extraída ) é uma influência
central neste trabalho. Dela retirei uma concepção
de Estado que o encara como um agente privilegiado para
reduzir ou eliminar as diferenças oriundas do que
Rawls chamou de situação inicial dos indivíduos
e dos grupos humanos (1971:121) e fazer com que a sociedade
se aproxime de seu ideal de justiça , a partir da
universalização do acesso dos indivíduos
aos bens sociais primários (1971:62) . E foi na Teoria
de Delimitação dos Sistemas Sociais de Guerreiro
Ramos que fui encontrar os contornos organizacionais de
uma sociedade que se aproxime dos ideais de uma sociedade
mais justa e mais rica sob o aspecto humano .
Com a presciência de seu gênio e em seu estilo
límpido e cortante , Guerreiro Ramos , de quem tive
o privilégio de ser aluno na minha querida alma mater
, University of Southern California , certa vez , definiu
o Brasil como um personagem que se preparou para comparecer
a um banquete , mas , contra seu desejo, tendo de vencer
uma série de obstáculos no roteiro que seguiu
, não chegou a tempo de tomar a última condução
que o levaria ao local da função. E assim,
ainda com vestes de grande pompa, dá-se conta de
que tem de trocar de roupa , a fim de ser tomado a sério
pelos circunstantes. (1980:4). E foi um dos intelectuais
brasileiros que entenderam com maior lucidez e antecipação,
o esgotamento do modelo desenvolvimentista adotado em nosso
país e a necessidade de articular uma nova proposta
de Estado, despojado de pompas , mas não desprovido
de poder, algo parecido com o que Michel Crozier (1989:10)
chamou de État modeste, em que o adjetivo "modesto"
se contrapõe a um Estado arrogante, onipresente e
onicompetente, [que] é forçosamente impotente,
pois só sabe ordenar a partir de princípios
abstratos e de visões gerais (1989:15) ; em vez de
grandes burocracias próprias , um conjunto de redes
organizacionais (Schon,1971), compostas de orgãos
públicos, universidades, organizações
da comunidade, ONGs - Organizações Não
Governamentais e organizações do que hoje
é chamado de Terceiro Setor , articuladas para multiplicar
a prestação de serviços a comunidades
específicas ou proteger valores socialmente importantes
(a defesa do ambiente ; a universalização
das oportunidades e dos serviços fundamentais ; e
a proteção do cidadão contra a violência,
o abuso ou a exploração econômica, por
exemplo ) .
Uma palavra é necessária a respeito da terminologia
que empreguei. Apesar de reconhecer a importância
de diferenciar termos como Estado definido como nação
politicamente organizada ...[uma] organização
independente , dotada da capacidade de exercer e controlar
o uso da força sobre um determinado grupo de pessoas
em um determinado território (Dictionary,1973:315)
, governo , que Gross (1998:9) descreve como o grupo de
pessoas que exerce a autoridade e controla o poder físico
sobre o Estado e os habitantes e setor público (conjunto
de organizações que forma o Estado e/ou age
em nome dele) , não fui , propositadamente , muito
rigoroso em obedecer tais diferenças pois , para
os objetivos deste livro , os limites entre os três
conceitos são muito pouco precisos: quando , por
exemplo, o Estado controla o uso da força (que é
seu monopólio) , é através do governo
que o faz e para isso se utiliza de organizações
que pertencem ao governo ou que estão autorizadas
a agir em nome dele . É dessa maneira que o Estado
e a sociedade se articulam.
Por outro lado, dado que o setor público é
, pelo menos teoricamente, guiado por valores burocráticos
no sentido weberiano do termo , isto é , deve agir
de acordo com as regras de impessoalidade, igualdade de
tratamento , previsibilidade e rigor técnico para
atingir o mais elevado nível de eficiência
(Weber,1977:36) nas suas relações com a população
utilizei as expressões burocracia estatal, aparelho
estatal, aparato estatal, máquina estatal, ou setor
público como virtuais sinônimos .
Ao
final de três anos de pesquisa e trabalho na preparação
da edição original deste livro e dos sete
meses que dediquei à sua atualização
conceitual e de informações no ano de 2003,
não tenho a pretensão de ter entendido a realidade
de nosso país melhor do que qualquer outra pessoa
que se dedique ao mesmo esforço. Mas , certamente,
fui poupado de cometer muitos equívocos e erros de
julgamento pela paciência de muitos amigos, colegas
de Universidade e alunos que leram e comentaram os manuscritos
originais ou parte deles. É impossível relacionar
todas as contribuições que recebi sem cometer
omissões, mas alguns desses revisores forçados
são especialmente credores de minha gratidão:
Aluizio Loureiro Pinto , Anthony Pain , Aroldo Murá
de Haygert , Fabio Campana, Flavio Barth , Hadjimu Myiashita
, Herbert Age José , João Dedeus Freitas Neto,
José Mário Brasiliense, Judas Tadeu Grassi
Mendes, Luiz Geraldo Mazza, Mariano Macedo, Nelson Felmanas,
Newton Freire-Maia , Osvaldo Maldonado Sanches, Raul Viana
Junior e Ricardo Pasquini , todos eles profissionais notavelmente
respeitados e bem sucedidos, encontraram tempo em suas agendas
para meditar sobre argamassa que nos une, além da
amizade, a brasilidade.
Tive ainda o privilégio de receber a contribuição
inestimável do Prof. Alexander McEachern, editor
da versão em língua inglesa deste livro, que
foi lançado nos Estados Unidos em março de
2003 sob o nome Brazil is not for Amateurs:Patterns of Governance
in the Land of “Jeitinho” e de Shan Martin McEachern,PhD
que , durante o processo de edição, contribuíram
significativamente para o aperfeiçoamento de conceitos
e idéias da primeira edição brasileira.
Minha família foi um apoio constante e entusiástico,
ouvindo e discutindo com paciência bíblica
, pedaços desencontrados de argumentos e de textos
e confiando , cegamente, que daquilo tudo resultaria algo.
A capa deste livro, que é a mesma da edição
em língua inglesa, foi criada por Jamil Snege, poeta,
escritor, publicitário e muito mais, um dos raros
espíritos realmente renascentistas com quem tive
a oportunidade de conviver, falecido prematuramente durante
o preparo desta edição. A imagem escolhida
por Jamil ilustra bem o espírito que procurei dar
a este texto. Tal qual o ourives, que examina as jóias
com uma lupa, um analista do Brasil necessita de minúcia
e de uma lupa se tiver a pretensão de separar o ouro
verdadeiro do ouro dos tolos.
Curitiba,
novembro de 2003
COMO MENTIR COM ESTATÍSTICAS
Que
você prefere: acreditar em mim
ou nos seus próprios olhos?
Groucho Marx
Nasci em 1942 e , de lá para cá, o Brasil
já teve sete moedas, três Constituições
, taxas de inflação que variaram de 1, 5%
até 4.500% ao ano, oito planos anti-inflacionários
, uma moratória internacional declarada em 1987 e
várias quase-moratórias disfarçadas
. Dois presidentes foram depostos , um foi impedido pelo
Congresso , que , aliás , foi várias vezes
fechado ou teve sua independência cerceada , e vivemos
desde sempre às voltas com uma interminável
"crise", contra a qual todos os governantes prometeram
um sem-número de reformas econômicas , institucionais,
administrativas , previdenciárias e fiscais , que
nunca chegaram ao fim e o mais das vezes nem começaram.
Fomos considerados sucessivamente o paraíso , o inferno,
o paraíso de novo e o inferno de novo dos investidores
estrangeiros ; já fomos rotulados de líderes
da América Latina ou tachados de sua ovelha negra
; somos tidos como o país do futuro e como o país
em que o futuro nunca chegará . Já se vê
que não é um país monótono.
Nem fácil de entender.
Um espírito arguto observou certa vez que o Brasil
é um país tão estranho que , em certos
momentos, quem não está totalmente confuso
é porque está mal informado . Os anos que
dediquei a estudar diferentes aspectos do nosso país
e do seu aparelho estatal para buscar, eu mesmo, uma explicação
que me satisfizesse , me convenceram de que a observação
não é apenas uma boutade galhofeira , mas
também uma verdade irretocável. Talvez por
isso mesmo e por mais que se estude, nunca se chegará
a entender definitivamente nem o que somos nem como chegamos
a construir este país em que a dimensão do
permanente, simplesmente não existe , substituida
por uma infindável sucessão de provisórios
, que desafiam e desmoralizam a sabedoria convencional e
as certezas passadas. Mas vale a pena continuar tentando
.
Ao longo de minha vida profissional , ouvi em muitas bocas
ilustres e supostamente bem informadas, aqui e no exterior,
um sem número de afirmações e interpretações
equivocadas a respeito do Brasil e dos brasileiros e gastei
muita saliva tentando contestá-las ou esclarecê-las
a meu modo. Minhas explicações eram quase
sempre recebidas com uma perplexidade divertida, que mal
podia encobrir uma ironia condescendente, que me fazia sentir
como um guia turístico imerso na floresta, tentando
explicar para brancos civilizados os costumes da minha tribo,
um doutor Livingstone às avessas. Um dia me cansei
de tentar explicar e , quando começava aquela cantilena
do “eu realmente não entendo o Brasil !",
"eu não entendo os brasileiros...”, eu
atalhava com ar enigmático:
-Veja , é difícil entender mesmo...O Brasil
não é para amadores...
A PÁTRIA DA IMPRECISÃO
Entender
o Brasil talvez não seja tão difícil
como parece à primeira vista. O que acontece é
que , como regra geral , a exatidão da informação,
infelizmente , não é o nosso forte . O Brasil
é um país de imprecisões, dos quases,
talvezes, quem sabes e se Deus quiseres .
Um país barroco, como definiu Affonso Romano de Sant'Anna,
cheio de sinuosidades e de formas rebuscadas e pouco cartesianas.
Nada ou quase nada é definido, tudo depende. Nossa
tradição de pesquisa sistemática é
relativamente pobre e acaba-se , com frequência ,
recorrendo a explicações fáceis e simplistas
, em que imperam o "achismo" e o "impressionismo"
ou , no extremo oposto à utilização
de modelos e esquemas interpretativos desenvolvidos em e
para contextos mais controláveis e , consequentemente
, inadequados para utilização em ambientes
com altos níveis de imprecisão e ambigüidade.
Para complicar ainda mais, boa parte dos que se dedicam
a estudar nosso país padecem do que Ana Maria Campos
chamou, delicadamente, de imodéstia cognitiva (1988:53)
, a sensação arrogante de que sabe tudo e
nada tem a aprender com os outros, especialmente os menos
letrados.
Para piorar o quadro, somos uma população
de místicos e supersticiosos, que adora crer em mágicas
, patuás e profecias, e gasta fortunas consultando
os "discípulos" de videntes , astrólogos
e sensitivos. Não há quem resista a uma olhadinha
no horóscopo , um estudo numerológico , um
mapa astral, um cálculo de biorritmo ou um “aconselhamento
espiritual”. Histórias de empresários
e estadistas que só fazem negócios depois
de consultar os astros ou os números são bem
conhecidas , mas existem , também, outras formas
de esoterismo empresarial, menos ostensivo e com capas de
respeitabilidade , dos “consultores econômicos”
e “analistas” , professores universitários
com pencas de títulos acadêmicos, ex-Ministros
e ex-executivos de grandes empresas multinacionais, que
recorrem a bolas de cristal eletrônicas para prever
o futuro das empresas e da economia nacional. Os resultados
podem ser (e frequentemente são) cômicos.
Em alguns casos, a pobreza de dados e informações
é franciscana, enquanto que, em outros, as informações
são abundantes , mas são confusas, contraditórias
ou simplesmente nunca foram coletadas de modo regular e
sistemático . Estatísticas que envolvem a
inflação ou o câmbio fornecem exemplos
perfeitos dessas contradições. Ao longo do
tempo, os indicadores de inflação foram vítimas
habituais de manipulações e expurgos por parte
dos formuladores de políticas econômicas preocupados
em diminuir artificialmente o impacto do aumento de preços
no país e assim, a cada plano anti-inflacionário,
escamoteava-se das estatísticas oficiais um pedaço
da inflação passada, como ocorreu no Plano
Cruzado (1984) e no Plano Collor (1991) . Outra fonte de
inconsistência das informações são
as modificações metodológicas nas formas
de apurar os índices. Como resultado, a montagem
de séries extensas cobrindo longos períodos
é significativamente comprometida.
No caso do câmbio, as dificuldades não são
menores. Diferentes políticas cambiais alternaram
períodos de estrito controle cambial, fixação
de paridades e/ou pura e simples manipulação
artificial dos valores de conversão com outros períodos
em que foram adotadas “bandas cambiais” ou ainda
em que as moedas estrangeiras foram cotadas livremente (ou
quase) no mercado, criando uma verdadeira babel nas estatísticas
oficiais. Dessa maneira, o uso das cotações
nominais das moedas estrangeiras para fins comparativos
perdeu absolutamente o significado; um observador desatento,
utilizando informações oficiais do IPEA- Instituto
de Pesquisa Econômica Aplicada , concluiria que o
PIB per capita do Brasil caiu de US$4,752.00 em 1998 para
U$3,194.00 em 1999 , uma perda catastrófica de 32,7%
em um ano apenas. Na realidade, em 1999 o país abandonou
a política de paridades quase-fixas que vinha adotando
desde 1994 e que inflavam artificialmente o valor da moeda
brasileira e passou a deixar o mercado estabelecer quase
que livremente as cotações cambiais que, como
era de se esperar, dispararam. Como resultado, a taxa média
de câmbio em 1998 foi de R$1,16/US$1.00 e em 1999
de R$1,88/US$1.00 . Em termos reais, ou seja, expurgado
de tais artificialismos, o PIB per capita permaneceu praticamente
o mesmo nos dois anos (US$2,521 em 1998 e US$2,507 em 1999,
sempre de acordo com o IPEA.
Para entender minimamente o Brasil, é necessário
montar uma colcha de retalhos com dados e fragmentos de
informação das mais diversas origens e dos
mais variados tipos. À primeira vista a confusão
aumentará ainda mais, pois será inevitável
que os dados se contradigam entre si e indiquem realidades
distintas. O pesquisador se sentirá como alguém
que tem vários relógios marcando horas distintas
, sem saber qual deles está certo ou , mesmo , se
algum deles está certo. Mas, infelizmente, se o pesquisador
optar por deixar de lado essa cacofonia, correrá
o risco daquele sujeito, celebrizado por Abraham Kaplan
no "Princípio de Pesquisa do Bêbado"
(1970:11) que procurava debaixo do poste a chave perdida
da porta , mesmo sabendo que a havia perdido na frente de
sua casa, porque "debaixo do poste está iluminado,
e na frente da casa está escuro..."
O QUE DIZEM AS ESTATÍSTICAS
Quem
ler as estatísticas oficiais , desanima: de acordo
com os dados oficiais, somos um desastre, uma nação
de miseráveis , iletrados e preguiçosos. Afinal,
33,6% da população vivem abaixo da linha da
pobreza 30,2% dos domicílios subsistem com uma renda
igual ou inferior a dois salários mínimos
ou cerca de US$160.00 mensais e 31,7% dos brasileiros com
mais de 10 anos ou são iletrados ou passaram até
3 anos na escola apenas (IBGE/PNAD 2001) . Somos impontuais,
adoramos feriados , brincamos o carnaval mais longo do planeta
e um trabalhador brasileiro produz 25% menos do um alemão
ou americano e 33% menos que um japonês,em termos
de geração de valor agregado (IBQP-Pr,2003)
Mas há fatos que intrigam: primeiro, como explicar
que, apesar dessas estatísticas que nos descrevem
de maneira catastrófica, em pouco mais de cinquenta
anos, essa população de pobres, iletrados
e preguiçosos conseguiu construir a oitava economia
industrial do mundo (hoje somos a 11ª) , apresentando
uma das mais altas taxas de velocidade de crescimento econômico
dos últimos cinquenta anos e o recorde de crescimento
entre 1950 e 1980? (Castro, 1999:21)E como explicar que
em 89% dos domicílios dessa população
, em que não faltam pobres e miseráveis, existam
televisores, 96% disponham de eletricidade , 85,1% de geladeiras
e 58,9 % de telefone? (IBGE/PNAD, 2001).
A UNICEF acredita que 35% dos nossos menores de 18 anos
(algo como vinte e um milhões de jovens) vìvem
em famílias com renda per-capita de até meio
salário mínimo, valor que correspondia , em
final de 1999, a cerca de US$35.00, o que os qualifica como
miseráveis (UNICEF, 2000) . Mas há dados perturbadores
da validade dessas estatísticas: a Pesquisa sobre
Padrão de Vida 96-97 do IBGE mostra que , entre 1989
e 1997, os meninos de 12 anos cresceram, em média,
7,3 centímetros. E, pela primeira vez, os obesos
superam os subnutridos nas estatísticas oficiais.
O Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição
e Saúde da Universidade de São Paulo, em estudo
de 1997, afirma que apenas 13,7% das crianças de
menos de cinco anos na cidade de São Paulo tinham
, em 1997 , crescimento inferior ao seu potencial genético,
contra 30,6% dez anos antes e 44,8% em 1974 (USP-NUPENS,
1997; Teixeira & Limolli, 1997: 59) .Para os pesquisadores
da USP, a população adolescente cresceu ,
em média , 6 cms. entre 1968 e 1994 e a obesidade
seria o principal problema da população femininina
na cidade de São Paulo (Monteiro,1997: 1-4).
Muito se falou a respeito da década de oitenta ,
que teria sido perdida e , quem sabe , dentro em pouco se
falará de duas décadas perdidas, quando se
contabilizarem devidamente as atribulações
econômicas dos anos noventa. Os coeficientes de concentração
de renda não se alteraram significativamente e todas
as aparências são de um progressivo achatamento
dos estratos médios de renda e uma rarefação
crescente nos níveis superiores da classe média.
No entanto, o Prof. José Pastore constatou que as
elites econômicas no Brasil estão se alargando
no topo , com os estratos mais elevados (alto e médio
superior) ocupados por 12,3% da população
(contra 9,5% em 1973) e uma ampliação dos
estratos médios , tanto o superior, de profissionais
de nível médio e médios proprietários
(3,4% para 7,4%) como o inferior ( trabalhadores qualificados
e semi-qualificados) , que passaram de 16% para 27%. A mobilidade
social vertical é alta , pois menos de 20% dos integrantes
da classe mais alta são filhos da própria
classe alta, enquanto que a base da pirâmide social
se estreitou: em 1973, 65% dos pais dos chefes de família
pertenciam ao estrato baixo inferior e 32% de seus filhos
ocupavam a mesma classe de renda ; em 1996 , 55% dos pais
de chefes de família pertenciam ao estrato mais baixo
, mas apenas 24% de seus filhos permaneciam na mesma classe
de renda (Pastore & Silva, 2001)
A explicação na ponta da língua para
essas aparentes incoerências é a existência
de enormes disparidades de renda em nosso país ,
o que é verdade . Mas isso não explica tudo,
já que não são os ricos que estão
comprando TVs , geladeiras e fornos de microondas , pois
rico já tem tudo isso e faz tempo. Certamente , também
não são os ricos e a classe média que
estão comendo mais ,porque não é por
que alguém é rico ou da classe média
que irá consumir dois frangos em vez de um ou dez
potes de yogurt em vez de um.
O que ocorre é que a realidade insiste em desmentir
aqueles que acreditam piamente nas estatísticas mais
visíveis , sem se dar ao trabalho de ir um pouco
mais fundo na investigação. É preciso,
ainda, somar a crônica relutância da população
em prestar informações a respeito de suas
rendas e haveres, escaldada pelo fato de que todas as vezes
em que o governo (ou alguém que se assemelhe a ele
aos olhos da população mais simples , como
os pesquisadores dos institutos de pesquisa) se interessou
por saber a respeito de suas rendas, foi para fisgá-la
com mais um tributo ou encargo.
NOMES IGUAIS , REALIDADES DIVERSAS
Quem
pretender entender , realmente, o país, tem de estar
atento para o fato de que , mesmo quando , sob o ponto de
vista da estatística, esteja se medindo coisas semelhantes
, o significado social e econômico dos fenômenos
estudados pode ser radicalmente diverso.
Para que esse ponto possa ser mais facilmente entendido,
tomemos, por exemplo, as taxas de desemprego. Com pequenas
variações e adaptações metodológicas,
o cálculo das taxas de desemprego no Brasil e nos
Estados Unidos é , substancialmente, igual, e expressa
o número de pessoas que, em um determinado momento
, não estão trabalhando. Mas , até
que ponto a comparação entre as taxas de desemprego
dos dois lugares é um bom instrumento para analisar
esse aspecto da realidade econômica e social ? E até
que ponto , quando os números demonstram que a taxa
de desemprego no Brasil e nos Estados Unidos subiu 1% ,
está se falando do mesmo fenômeno? Na realidade
, as taxas de desemprego no Brasil e nos Estados Unidos,
embora calculadas por fórmulas semelhantes, medem
fenômenos sociais diferentes. Nos Estados Unidos ,
há diversas formas de interromper um contrato de
trabalho, cada uma delas ensejando consequências diferentes
para o empregado. Um trabalhador americano pode ser temporariamente
dispensado ( temporary lay-off ) por força
de redução de demanda e flutuações
da produção e do consumo; colocado em licença
involuntariamente por razão não-disciplinar
e normalmente ligada à redução temporária
da produção(furlough) ou dispensado
definitivamente (permanent lay-off ou cutback)
(Anglin, 1996:289 ; 445). O trabalhador terá perdido
o emprego definitivamente somente nos casos em que foi atingido
pelo permanent lay-off (ou cutback ou
ainda a redundancy como se diz na Inglaterra )
. Boa parte do índice de desemprego reflete os temporary
lay-offs, ou seja, o desemprego temporário para
a acomodação de estoques e de volumes de produção,
que tem consequências muito pouco traumáticas
para os empregados.
Neste caso , seus direitos de antiguidade na empresa são
respeitados e sua renda pode cair um pouco durante um determinado
período, mas os colchões de proteção
social dos fundos de desemprego mantidos pelos sindicatos
e pelo Estado e outros mecanismos , ajudam a superar essa
situação até a retomada da produção
, e com ela , a volta de seu emprego e de seu salário.
No Brasil, o desemprego é sempre definitivo , o permanent
lay-off, o cutback . Se alguém é
demitido, encerra seus vínculos com a empresa , recebe
seus direitos, zera o tempo de serviço e tudo o mais.
Já que virtualmente não existe colchão
de proteção social algum ( a não ser
um modesto auxílio aos desempregados), quando acabar
o dinheiro que recebeu, ou já arranjou um novo emprego
ou passará fome. O seu retorno ao antigo emprego
é problemático , pois a legislação
dificulta de tal forma a recontratação do
mesmo funcionário (mandando somar o tempo de serviço
anterior, por exemplo, o que onera o empregador ) , que
é mais prático e barato para a empresa não
readmiti-lo quando a retomada da produção
exige mais mão de obra. Portanto, para um cientista
social consciente , o mesmíssimo 1% do Brasil e dos
Estados Unidos tem significados radicalmente diversos ,
pois refletem fenômenos econômicos e sociais
que, em substância, são radicalmente diferentes.
A mesma distorção está presente quando
se analisa uma infinidade de outros aspectos da realidade
. Calcular a riqueza relativa da população
de diferentes países mediante a comparação
da renda per capita ou da renda familiar continua a ser
um exercício bastante popular mas , se a renda familiar
for igual em dois países diferentes , isto não
significa, automaticamente , que as duas populações
têm o mesmo padrão de vida , o mesmo poder
de compra e o mesmo nível de acesso a bens e serviços
. É preciso levar em consideração a
estrutura familiar (nuclear ou estendida), entender corretamente
a renda e os padrões de comportamento e consumo das
famílias, conhecer a disponibilidade de serviços
públicos de educação, a existência
ou não de esquemas de seguridade social, os preços
e disponibilidade de mercadorias, as políticas governamentais
de abastecimento (alguns países subsidiam os alimentos
básicos e a habitação popular , outros
não), a adequação das taxas de paridade
cambial do país, etc. Duas famílias com a
mesma renda monetária , vivendo em dois países
diferentes, podem ter padrões de vida inteiramente
diversos. Consequentemente, comparar padrões de vida
cotejando salários mínimos ou rendas per-capita
é um rematado equívoco, cometido com frequência
por analistas econômicos e formuladores de políticas
públicas .
Algumas dessas questões parecem óbvias mas
, infelizmente, não o são. Governo e empresas
, frequentemente , tomam decisões baseadas em dados
agregados , imaginando que já que eles são
calculados de maneira semelhante, têm o mesmo significado
econômico e social em todos os países, o que
é falso.
O
SIMBÓLICO E O REAL
Mas
o problema vai muito além da qualidade das estatísticas
e compreende, também, o instrumental de análise
utilizado. Muitos autoproclamados especialistas falham em
entender a realidade nacional , porque estão acostumados
a transitar com desenvoltura no mundo simbólico das
equações , fórmulas e algorítmos,
enquanto demonstram um desconhecimento abissal a respeito
de como as pessoas realmente vivem, como obtêm e gastam
sua renda, etc.
É arriscado (para dizer o mínimo) aplicar
, com descuidada desenvoltura, modelos explicativos concebidos
para economias e contextos sociais maduros, em que um alto
grau de estabilidade e previsibilidade são a regra
, a um país instável, imaturo e imprevisível
como o nosso. Modelos nada mais são do que representações
simplificadas de realidades complexas e , portanto, limitados
a serem supersimplificações ou aproximações
(Popper,1995:59) e não cópias fiéis
da realidade. Quanto mais a situação a ser
"modelada" for simples, estável e não
sofrer bruscas variações , maior será
a capacidade daquele modelo de reproduzir , em escala de
laboratório o que ocorre na vida real. O inverso
é ainda mais verdadeiro: quanto mais complexa , instável
e volátil for a realidade a ser modelada, maior o
risco de que o modelo produza resultados e conclusões
equivocadas e mesmo absurdas. Como alerta Milton Santos,
[o] modelo só permite a complexidade porque a simplifica.
A imagem global da complexidade reproduz a complexidade
e assim não é útil.É dando destaque
a um caráter particular selecionado pela sua importância
que vemos o modelo progredir. Ele é, por natureza,
parcial e simplificador (1996:64)
Para que um modelo de sistema econômico, por exemplo,
tenha utilidade como ferramenta explicativa no Brasil, teria
de levar em consideração realidades cuja mensuração
é muito problemática , tais como o tamanho
da economia informal pois suspeita-se que entre 40 e 50
% das transações econômicas estão
fora das vistas das estatísticas oficiais (e, portanto,
tudo o que se sabe a respeito delas é impreciso,
parcial, baseado em ilações, suposições
e hipóteses de valor limitado) . Por outro lado,
os volumes de moeda e de crédito que circulam na
economia também são incógnitas em um
país como o Brasil, em que cinco ou seis moedas e
paramoedas coexistem (Real, dólar, tickets-refeições,
vales-transportes, Unidades Fiscais de Referência
...) , boa parte das transações comerciais
não são registradas e um volume desconhecido
de cheques pré-datados infla as estatísticas
de crédito. Ao acreditar que variáveis como
moeda , demanda, consumo aparente, crédito , etc.
têm o mesmo significado em um país de economia
estruturada e em um país como o nosso, os analistas
ingressam num terreno pantanoso, pensando estar pisando
em terra firme.
Fernando Gabeira, no O Que é Isso, Companheiro? (1996:59)
, descreve um episódio tragicômico. Um grupo
político clandestino em São Paulo, do qual
ele participava, consegue se aproximar de um trabalhador.
Os militantes, encantados pela oportunidade de entender
como vivia um trabalhador em carne e osso , começam
a frequentar sua casa e conviver com sua família.
E, conta Gabeira, a partir de então, ocorre uma metamorfose.
No início, quando alguma discussão politica
surgia no grupo, alguém sugeria: "que tal ouvirmos
a opinião do fulano?" Depois de algum tempo,
a sugestão já era mais pomposa: "devemos
consultar nossas bases operárias!" ou ainda:
"como reagirá a isso o proletariado?".
O que, em português claro, continuava a significar
conversar com o mesmíssimo fulano.
Muitos analistas e comentaristas da cena brasileira parecem
recorrer à opinião da sua empregada para entender
como pensam "os assalariados", aproveitam o momento
de pagar o aluguel para auscultar o sentimento dos "rentistas"
e , quem sabe , costumam perguntar ao jardineiro, como está
se comportando "a agricultura"...