PERFIL
De
quando pregar é preciso, mesmo que no deserto
Por Aroldo Murá
Poucos no Paraná
desses últimos 40 anos terão tido uma participação
tão fértil, quanto ele, na montagem de projetos
e planejamentos públicos. E menos ainda os que, como
ele, interagiram tão decisivamente na vida paranaenses
ajudando a fundamentar as bases de um Estado moderno. Sua
ação foi mais notável nos governos Emílio
Gomes e Jaime Canet Jr. Mas o homem público, o professor,
o pensador, o ser humano diferenciado continuam atuantes e
influenciando gerações e plasmando idéias.
Na primeira pessoa.
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Nas raízes longínquas, há as sementes
deixadas por um cura d’almas de origem portuguesa,
no Rio Grande do Sul do século 18. O padre está
nos troncos dos Jobim. Daquele ramo (spes messe in semine
est – a esperança da messe está
na semente), ficam descendências em múltiplas
áreas, nos séculos seguintes, um cardápio
amplo de vocações e expressões
culturais que também nos ajudam a melhor entender
– de alguma forma - o personagem Belmiro Valverde
Jobim Castor.
Os Jobim vieram de um vilarejo português.
Seriam Jubin, com entonações francofônicas,
na grafia primitiva. Firmaram-se na terra adotiva e
depois definitiva, os pampas, o Rio Grande dos gaúchos
mais representativos, muito antes de se pensar em correntes
migratórias européias (não ibéricas).Terra
dos gaúchos das coxilhas, e de Santana do Livramento.
Depois, por direito de conquista, vão se espalhando
e assumindo posições de liderança
no Estado até adquirirem ampla visibilidade naquele
terreno em que os gaúchos sempre se mostraram
muito competentes: o comando de homens e idéias.
Um primo não distante de Belmiro
será o novo presidente do Supremo Tribunal Federal
(STF), Nelson Jobim; Walter Jobim foi governador do
Rio Grande, nos anos 50s e outros da linhagem preencheram
vários postos de relevância nos legislativos
e executivos do Sul.
Mas talvez o Jobim mais notável
da vida nacional – tio em primeiro grau de Belmiro,
irmão de dona Maria da Glória Jobim Castor
– foi Danton Jobim. Jornalista com tiradas panfletárias,
um dos condestáveis do mais retumbante jornal
brasileiro dos anos 60s, a Última Hora, ele preencheu
por anos o noticiário político nacional,
ora na presidência da então poderosa ABI-
Associação Brasileira de Imprensa,e por
muitos anos como representante dos cariocas no Senado,
com decisiva influência em todo o país.
Não conhecia outro espaço senão
o dos palcos das grande decisões nacionais, em
que era dos atores principais e, muitas vezes , o “meteur
en-scène”.
E há o intelectual embaixador
José Jobim, irmão de Danton, humanista,
exemplar raro de homem público, vocação
da “carrière” então formada
sob o império dos conhecimentos clássicos
. O tio José, de Belmiro Valverde Jobim Castor
, ocupou na diplomacia muitas posições,
a última delas, a de embaixador na Santa Sé.
Ah, não se pode esquecer o Antônio Carlos
Jobim, o Tom, resumo do que de melhor a alma nacional
é capaz de produzir em criatividade,poesia, ritmo
e musicalidade. Primo também de Belmiro, Tom
é a encarnação do exercício
lúdico, uma concessão a que às
vezes alguns ramos da grande família se concedem.
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Os Jobim vieram de um vilarejo português.
Seriam Jubim, com entonações francofônicas,
na grafia primitiva |
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O
praça e o general: a forja foi o sertão
Do lado Castor há a fibra do
pai, o general Carlos Castor, um paraibano egresso da
faina do campo e que um dia deixou o sertão para
servir ao Exército, como praça de pré,
em João Pessoa. Chegou à Capital ainda
um jovem de poucas letras e limitadas habilidades urbanas.
“Fez carreira“ – como se dizia antigamente
-, no Exército. Queria superar a sina a que parecia
destinado, de viver do solo estéril e da terra
sem horizontes, tendo o sol de rachar como testemunha
da falta de futuro.
Esperava bem servir à pátria
com a farda verde-oliva: estudou, e paralelamente à
caserna, formou-se em Direito e, ao ir para a reserva,
nos anos 60s, já general e contabilizando muitos
serviços Brasil afora, ainda lembrava o jovem
espartano. Era o homem de marcantes austeridades e formalidades,
traços dos varões de seu tempo, e sublinhados
pela severa vida castrense.
Doutor Valverde,
avô e mestre maior
Para Buffon, o estilo será sempre
o homem, não é novidade.
Em Belmiro Valverde Jobim Castor, por
quatro vezes secretário de Planejamento do Paraná
e uma vez secretário estadual de Educação
, introduzido ao planejamento na França,PHd em
Administração Pública pela USC,
Estados Unidos, mestre de gerações na
FAE e na Universidade Federal do Paraná, o seu
estilo pode ser entendido, em boa parte, ao se examinar
suas ancestralidades.
E na composição de seu
“ DNA psicológico” talvez a impressão
digital mais forte, e que mais ajude a entender o homem
público Belmiro esteja no médico Belmiro
Valverde, seu avô materno, de quem herdou o nome
e a obstinação e em cuja sombra se formou.
Com o doutor Valverde, que passou à
história como integralista fidelíssimo
ao nacionalismo de Plínio Salgado, e de oposição
tenaz a Vargas (por isto, tantos vezes e anos nos calabouços
da ditadura dos anos 30s), o neto recolheu as lições
vitais. A primeira delas, a disciplina para o estudo,
a formação religiosa (aplainada pelos
padres agostinianos do Colégio Santo Agostinho,
do Rio), o apego ao fascinante da lógica.
O menino que parecia perdido no casarão
carioca, cercado de adultos, nos anos 50s, desde os
dez anos de idade, talvez “perdesse” ali
a infância. Mas com certeza amadureceu antes do
tempo. Daquele “casulo” saiu formado em
Direito pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro,
e com reservas espirituais e intelectuais sem fim, para
a insuperável aventura da vida.

A criança não é, porventura,
o pai do homem? |
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“O mais paranaense dos
cariocas”
nasceu nas Gerais
O Paraná dos últimos
40 anos foi aprendendo a ouvir com respeito a opinião
desse personagem a quem o jornalista Fábio Campana
classifica de “o mais paranaense dos cariocas”.
Isso mesmo: um “carioca” de criação,
nascido em Juiz de Fora, Minas Gerais, há 63
anos. Aos quatro anos veio para o Paraná, com
a família, que fora morar em Rio Negro. Dos 10
anos em diante, até 1964, ficaria no Rio, haurindo
ensinamentos do avô e se preparando para viver
e contribuir para a Era que depois viria, a do Conhecimento.
O batismo paranaense de Belmiro adulto
foi como franco observador de um momento histórico:
a convenção estadual do antigo Partido
Democrata Cristão (liderado por Paulo de Tarso,
Franco Montoro e Ney Braga, nacionalmente), realizada
no Guairinha, o pequeno auditório do Teatro Guaira,
em 1964.
Ney, o poderoso governador do Estado,
teve, no entanto, não poucas dificuldades para
controlar o grupo de Affonso Camargo (apoiado pela articuladíssima
Juventude Democrata Cristã,JDC, com Giovanetti,
os irmãos Paulo e Cleon Ricardo dos Santos, José
Richa). Ney apoiou Paulo Pimentel, que acabou eleito
governador.
Foi a primeira crise paranaense que
testemunhei, recorda Belmiro, deixando encadeado o complemento:
“ de uma séria que seguiria...”
Com Alípio,
o aprendizado do Paraná
e de seus contornos
E o seu primeiro “laboratório”
de Paraná foi na antiga Secretaria de Estado
de Viação e Obras Públicas, ao
lado do estrategista Alipio Ayres de Carvalho, maranhense
que conhecia como ninguém os meandros do Estado
que Ney Braga iria modernizar e dar unidade, ao montar
uma infra-estrutura essencial de rodovias, financiamento
(BADEP), comunicações (TELEPAR), sistema
elétrico(COPEL), educação e os
esboços do planejamento público (PLADEP).Ao
fundo, a influência discreta do grupo Economia
e Humanismo, do padre Lebret, personagem internacional
que Ney atraira ao Estado, e que antes passara pelo
assessoramento ao governo paulista.
A decisiva "madame"
Hélène, a Cepal e a USC
Belmiro denuncia no discurso uma entonação
francesa de dissecar a vida – um certo sarcasmo
polido, com alfinetadas capazes de provocar mortais
efeitos nas “vítimas” – convivendo
com o pragmatismo dos “scholars” americanos
na busca de estatísticas para confirmar resultados
de suas teses.
O lado francês pode ser identificado
a partir dos anos 60s, quando caiu nas graças
da então poderosíssima madame Hélène
Garfunkel (mãe de Maria Francisca Rischbieter,
a Fanchette, e casada com o pintor Paul Garfunkel).
Da Praça Osório, no edifício Santa
Julia, dirigindo a Aliança Francesa, ela era
o epicentro em torno do qual girava uma penca de talentos
em direção a múltiplos horizontes:
Jaime Lerner, Maurício Schulman, Saul Raiz, Ario
Derginte, Marilena Zicarelli, Juca Zockner, Rafael Dely,
etc.
Uma das ambicionadas bolsas de estudos
da disputada Cooperation Technique garantiu a Belmiro
oito meses em França, para estudar Economia e
Planejamento públicos. Depois, imersão
nas teorias da Cepal e América Latina, e os posteriores
(a partir de 1979) mestrado e doutorado em Administração
Pública, na USC, Califórnia, solidificaram
as bases acadêmicas do pensador-planejador. Uma
passagem produtiva que lhe rendeu o primeiro grande
prêmio que a USC destinou a um brasileiro por
classificar-se com excelência no seu Curso de
Doutorado.
Talvez o mais valioso, no fundo, lhe
tenha sido a amizade solidificada com o antológico
sociólogo professor Guerreiro Ramos, que na USC
vivia um frutuoso exílio intelectual, influenciando
novas gerações universitárias,
com audiência privilegiada entre futuras lideranças
latino-americanas e respeitabilidade no mundo acadêmico
dos Estados Unidos.
...e nasceu o
sistema estadual de planejamento
Pensar e planejar o desenvolvimento
do Paraná seriam a partir daquela primeira experiência
com Alípio, em 64, um certo moto contínuo
na vida de Belmiro, pois nunca mais se desvincularia
dessa meta.
A grande crise trazida pela queda do
governador Haroldo Leon Perez, no final de 1971, encontrou
Belmiro trabalhando com Luiz Forte Neto. Integrava um
grupo escolhido a dedo por Forte para montar o PDU –
Plano de Desenvolvimento Urbano, patrocinado pela extinta
SUDESUL (Superintendência de Desenvolvimento do
Sul). Dividia conhecimentos e experiências com
Ario Taborda Derginte, Cássio Bittencourt de
Macedo, Vicente de Castro Neto, Ragindra Ramalho, entre
outros.
- A queda de Leon Perez, sob acusação
de corrupção, pegou-nos a todos de surpresa.
Mas o PDU estava pronto, era o primeiro plano regional
de desenvolvimento do Paraná, recorda Belmiro.
Foi decisivo na carreira de Belmiro
(e para o Paraná) o encontro que teve em dezembro
de 71, no Palácio Iguaçu, com aquele que
seria peça chave no governo seguinte (o de Pedro
Viriato Parigot de Souza), o engenheiro Ivo Simas Moreira.
Copeliano (oriundo da COPEL) como Parigot,
e um dos discípulos mais diletos do novo governador,
Ivo convidou Belmiro para assumir a Coordenação
Estadual de Planejamento. Pelas mãos dele, então,
desenvolve-se o embrião da futura secretaria
de Estado do Planejamento, e partir de cujo trabalho
o Paraná passou a dispor de um sistema estadual
de planejamento definido e definitivo. O primeiro secretário
da pasta seria Ivo Moreira.

Elizabeth, esposa e por quem nao esconde a paixão
quase juvenil do casamento em 1964, é a silenciosa
e ao mesmo tempo loquaz presença em cada
instante do mundo de Belmiro |
O Primeiro imóvel,
Paris e
a Secretaria de Planejamento
Na Páscoa de 1972, a doença
que depois levaria Parigot à morte acaba dando
sinais claros de que sob o signo dela, de altos e baixos,
seria a marca do governo daquela figura longelínea,
comportamento austero, feições e ares
ascéticos. O vaivém dos boletins médicos,
sobre as internações de Parigot, e suas
muitas recaídas de saúde, ocupariam a
agenda de governo. Depois, havia todo um processo político
procurando desestabilizar o Governo – aproveitando-se
da da morte anunciada. O que incluía até
execráveis tentativas de chantagens...
Nós, Elizabeth e eu, também
fomos atingidos na nossa vida pessoal pela crise: interrompemos
as negociações de compra de nosso primeiro
apartamento, pois não havia garantia de emprego,
lembra Belmiro, procurando confirmação
nas lembranças daquela mulher plácida,
elegante, atenta, vigilante e a quem não escapa
nada ao derredor. Elizabeth, esposa e por quem não
esconde a paixão quase juvenil do casamento em
1964, é a silenciosa e ao mesmo tempo loquaz
presença em cada instante do mundo de Belmiro.
Ela amplia o fio das recordações,
quando se começa a falar do ano de 1974, “quando
Belmo foi convidado a assumir a Secretaria de Planejamento”,
do Governo Emílio Gomes, e em substituição
a seu amigo Ivo Simas Moreira:
- E tem aquela história do “monsieur
le governeur vous a telefoné...”
Foi assim: o casal estava em Paris.
Com dinheiro contadíssimo, se hospedara num hotelzinho
pra lá de modesto, no Quartier Latin, recebendo
o usual tratamento dispensado aos comuns mortais pagantes
de diárias módicas. Até que começaram
a chegar telefonemas do Brasil, muitos, insistentes,
que eram repassados a Belmiro ao final da tarde, quando
o casal voltava dos périplos parisienses.
- Na medida em que o gerente do hotel
nos informava que “o senhor governador lhe telefonou”,
por dias seguidos repetindo a mesma mensagem, pois os
telefonemas se sucediam, nós também éramos
promovidos, ganhando direitos a mesuras e reverências
e até novas e melhores acomodações
na casa, conta Belmiro, entre risos e apropriadas entonações.
A casa, deve ter concluído o
gerente, hospedava uma personalidade brasileira.
Foi secretário de Planejamento
de 74 (Governo Emílio Gomes) e durante todo o
Governo Canet (75 a janeiro de 79). Em começos
de 79, muda-se para a Califórnia, onde freqüentaria
a USC até 1982.
Foi também, em todo o período,
o homem fortíssimo do Governo. O quê e
o quanto deixou em termos de renovação
e preparação da vida do Estado para os
anos que se seguiriam pertencem à História.
E a História é toda favorável a
Belmiro.
O que se pode dizer, resumindo, é
que foi trabalho fértil, inigualável,
em que até executivos de planejamento tinham
treinamento oferecido pelo Estado num nível que
seria hoje o de MBA. E que o próprio Estado acabou
patrocinando a instalação temporária
em Curitiba de um mestrado em Planejamento em cooperação
com universidades norte-americanas, o que acabaria fundamentalmente
aperfeiçoando o funcionalismo estadual.
Foi desse período
a publicação referencial sobre o Paraná,
sua história, suas potencialidades, sua gente
e sua riqueza, a revista “Referência em
Planejamento”, feita por jornalistas e técnicos
do Governo. Dentre os jornalistas: Celso Nascimento,
Reinaldo Jardim, José Benedito Pires Trindade,
Luiz Geraldo Mazza, Maí Nascimento Mendonça,
Araton Maravalhas, Aroldo Murá, Marilu Silveira,
Aramis Millarch.

Belmiro Valverde em várias
ocasiões ocupou cargos relevantes no Bamerindus.
De 1992 a 1996 foi o superintendente do banco
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Por um punhado
de dólares e
a crise com os Professores
A marca registrada do médico
e político Dr.Belmiro Valverde – a austeridade
- parece ter-se transferido para o neto Belmiro, cujo
zelo pela coisa pública fê-lo denunciar
(em 1984) irregularidades de um secretário de
Fazenda do Governo Richa. O mesmo Governo ao qual Belmiro
pertencia como secretário de Planejamento, posição
assumida em 1983.
A chamada crise dos dólares
mobilizou a opinião pública nacional,
com o cidadão ganhando o direito a ver pela televisão,
em transmissão direta, os debates em que acusado
e acusador (Belmiro) expunham suas posições.
Denúncias que tiveram o veredictum – depois
de amplos estudos – de homens acima de qualquer
suspeita, como o então presidente do Instituto
de Engenharia do Paraná, general Luiz Carlos
Tourinho. Parecer francamente favorável a Belmiro
o qual, apesar disso, acabou demitido pelo governador
José Richa, junto com o acusado.
Assim como o salmista (zelus domus
(Dei) comedit - o zelo por tua casa me consome) Belmiro
consumiu-se em zelo.
Manteve-se íntegro. No fundo,
uma flama muito forte a alimentar os projetos de vida
e que, no caso dele, se identificariam sempre com fidelidade
às propostas públicas.
O próximo passo foi a Bamerindus:
em 1984 foi ocupar a Diretoria de Planejamento e Controle
Estratégico do banco, em que fica até
1987. Antes, em 85, recusara convite de Jaime Lerner
para ser seu vice na chapa em que Lerner concorreu ‘a
Prefeitura de Curitiba contra Requião, e por
quem seria derrotado.
A derradeira experiência na administração
pública do Estado foi de 1987 a 88, como secretário
de Educação de Álvaro Dias. Saiu
na esteira da grande greve dos professores, acusado
pelo PMDB de então de ter sido intransigente
em não acatar as reivindicações
dos grevistas. O Governo de Álvaro acabou marcado
politicamente pelo episódio em que cenas de policiais
dispersando professores em piquetes seriam farto material
de futuras campanhas eleitorais, exploradas na televisão.
Não houve, na realidade, vitória dos professores.
O Governo acabou prometendo mas não cedendo nada
aos grevistas. Uma vitória de pirro, então.
Líder
nacional no mercado de câmbio
Retornando ao Bamerindus, de 1989 a
1992 chefiaria a área Internacional do banco
de José Eduardo. O setor contabilizaria resultados
incontestáveis: o banco paranaense chegou a líder
no mercado de câmbio no Brasil, superando mesmo
o Banco do Brasil, no período de 94/95. Presenças
do banco com agências ou escritórios em
N.York, Cayman, Londres, Hong Kong, Luxemburgo (onde
criou um outro banco hoje propriedade do Itaú),
Buenos Aires. Em pleno “boom” desenvolvimentista
argentino, o Bamerindus chegou a assumir a liderança
do financiamento no país platino.
A posição de superintendente
do banco foi a etapa seguinte, de 1992 a 1996 . Deixou
a instituição financeira em 96, um ano
antes de seu fechamento, ato que, diz, um dia virá
à tona na sua inteireza. E ficaremos sabendo
de seus verdadeiros motivos, opina Belmiro. |
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“O
Brasil não é para amadores”
- um livro, muitas explicações
Em junho de 2000 Belmiro passou para
livro uma série de idéias. O centro da
proposta é explicar o Brasil, suas origens, suas
contradições, o “jeitinho”
e suas fundamentações históricas
e psicológicas. Trata-se de uma profunda imersão
na alma do brasileiro, examinando-o como um ser peculiar,
produto de múltiplas influências, momentos
históricos e contradições. O Brasil
de homens e mulheres que, malgrado a propalada triste
sina dos trópicos, acalentadora de tantas teses
acadêmicas, precisa ser conhecido.
“O Brasil não é
para amadores”, edição do Instituto
Brasileiro de Qualidade e Produtividade, também
pode ser comprado na versão inglesa – “Brasil
is not for amateurs:patterns of governances in the land
of jeitinho” -, editora Ex Libris, da Filadélfia.
Vendas pela Amazon.com.
A Travessa dos Editores está
preparando a segunda edição, revista,
e com números atualizados, de “ O Brasil
não é para amadores”.

Em 2000, Belmiro Valverde lançou
"O Brasil não é para amadores",
tendo autografado o livro na Saraiva Megastore em
Curitiba |
A Vocação
mais forte - o magistério:
“O coração, um lugar certo”
Na chácara em Laranjeiras, Piraquara,
o espaço é amplo, o ambiente é
partilhado por seu mundo imediato mais significativo:
além de Elizabeth, as filhas Carolina –
com mestrado stricto sensu em Literatura e Língua
Inglesa obtido na Inglaterra -, e Adriana – psicóloga
-, e aquele que hoje toma grande parte de suas atenções,
Leonardo, o neto, 4 anos.
A casa principal lembra uma confortável
vivenda virginiana. O nome da chácara, que abastece
de hortifrutigranjeiros a família e também
a uma obra social, foi dado em homenagem a uma das maiores
admirações (e devoções)
do casal Castor: Santo Antônio, seguido do adjetivo
“das Laranjeiras”.
Ah, há outra admiração/devoção,
que os amigos conhecem bem: chama-se padre João
Batista Reus, um jesuíta alemão que viveu
no começo do século XX no Rio Grande do
Sul,e morreu em meados daquele século com fama
de taumaturgo. Admiração que pode até
ser parte do legado gaúcho dos Jobim.
Talvez na sua ligação
com as realidades do transcendental esteja a explicação
para a fortaleza interior que olhares atentos identificarão
no professor Castor. Um “religare” maduro,
sem pieguices, objetivo, que não requer muitas
cogitações. Uma fé que enxerga
– porque tem de enxergar, e pronto – muito
além do visível. Nele há muito,
dirão os estudiosos do fenômeno religioso,
daquela fé que sempre identificou os ibéricos.
Os quais saberiam antever realidades sobrenaturais,
sem temores ou tremores. Como parte do dia-a-dia.
Os comentários que faz em rádio
e os artigos para a Gazeta do Povo ele parece encará-los
como parte do grande processo educativo em que se envolve.
Observe-se, pois, como Belmiro encara o magistério
(que ele exerce no curso de Administração
da UFPR e na pós Graduação da FAE):
- A gente pode estar em todos os lugares.
Mas o nosso coração estará num
certo lugar...
A expressão, diz, é do
professor Guerreiro Ramos. E ao se socorrer dela, Belmiro
afiança que seu coração esteve
sempre no magistério. Um trabalho/doação,
admite, que pode até mesmo ter componentes narcisistas
e, em certos momentos, exige a noção do
espetáculo, do teatral.
- Gostamos da idéia de que as
pessoas (alunos) se inspiram em nós. E esta é
uma relação clara de educação,
entre o mestre e o aluno, que acaba sendo um prêmio,
sublinha Belmiro.
Este educador de “nascença”
está em permanente guerra contra a burocracia
educacional, “que é meramente acessória”.
Em decorrência da lamentável supervalorização
do aparelho educacional – acredita Belmiro –
acabamos no Brasil por valorizar pouco a educação.
- É preciso termos um compromisso
civilizatório com a educação, esta
se realizando na sala de aula, observa.
E assim, não se importando se
o classificam de elitista,resume o que pensa deva ser
o ensino superior: “ é mesmo para formar
elites”.
Sobre a universidade pública,
uma certeza: ela é refém de equívocos.
O mais clamoroso deles, o que prega o ensino gratuito,
“a melhor maneira, acredita Belmiro, de se perpetuarem
desigualdades. Porque, no geral, os que podem pagar
são os que têm acesso à universidade
pública, um contra-senso.”
Outro espinho na carne da universidade,
o do atendimento às democracias internas, tem
a condenação frontal do professor, um
anti-corporativista, por excelência. E como tal,
é defensor do chamado Provão (avaliação
de qualidade do ensino superior, nos moldes em que vinha
sendo executado). “É um termômetro,
agora destruído”.
Uma voz “clamandi in deserto”?
Se preciso, assim será até o fim. É
uma questão de compromisso com a vida, na qual
conseguiu abarcar generosas oportunidades de crescimento
em todas as dimensões. Um bafejado pelos deuses?
Não. Belmiro é a soma dessas realidades
em que a alma lusa, o sertão tórrido e
a têmpera de homens obstinados, mais o frio minuano
dos pampas se encontram. Um modelo de brasileiro em
grande parte cinzelado pelo cosmopolitismo do Rio de
Janeiro dos anos 50/60s. E – vital – moldado
também pela escola sapiencial de sua veneração
maior, o doutor Belmiro Valverde, que um dia, talvez,seja
conhecido muito além dos estereótipos
montados por seus opositores políticos.
Belmiro, em alguns momentos, poderá,
mesmo, ser “lido” como integrante daquele
multifacetado universo proposto no seu “O Brasil
não é para amadores”. Lê-lo,
sempre, sempre fará bem.
|
por
Aroldo Murá G. Haygert
Extraído da revista
Idéias, n° 9 03/2004 |
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